sábado, 11 de outubro de 2008

1996, a metade inteira

Não sei se foi o sono, ou se foi mesmo destino, afinal não se pode fechar os olhos para a tremenda coincidência. Em menos de 12 horas, ele bateria a mesma perna, e de novo, nalguma coisa dela. Andando para o fundo do café, ele nem viu a pasta colocada ao lado da cadeira. Foi um desastre. Antes a batida tivesse apenas machucado a perna que já estava sensível. Mas quando se pode ter resultados catastróficos, para que a simplicidade? A pasta escorregou pelo salão, parando apenas no garçom que trazia o café preto, sem açúcar, e dois pães de queijo que ela sempre pede. Com os olhos fechados para impedi-lo de assistir o desastre, ele viu só resultado. Um garçom estirado no chão, atônito pelo surgimento de uma pasta expressa fazendo caminho no meio do salão, um café esparramado e dois pães de queijo rolando para baixo da mesa. Ele púrpura de vergonha pede desculpas para a moça, para o garçom, para os demais telespectadores e não sabe se devolve a pasta, levanta o atendente, procura pelos pães de queijo ou corre desesperado até a cidade vizinha e nunca mais volta naquele café. Enquanto olhava para a porta, calculando a velocidade média necessária para uma fuga perfeita, o garçom já tinha se levantado e ela, olhando para aquela figura desolada, pergunta se tinha doído. Nunca conseguiu entender o porquê da pergunta. Não era de conversar com ninguém, muito menos com alguém que chutasse sua pasta e derrubasse seu café. Mas alguma coisa naquele rosto triste, naquele ar de desamparo a despertou. Era como se pela primeira vez tivesse olhado no espelho e visto nada mais que tristeza. Ele demorou para entender o que acontecia. De todas as alternativas previstas esta nem sequer passou pela sua cabeça. Olhou para aquela mulher bonita, que se esforçava para contrariar essa natureza a todo custo e, sorrindo pela primeira vez em dois dias, disse não. Senta, convidou ela desacreditando nas próprias palavras. Assim você me paga o café que me fez perder. Sentou. Pela primeira vez estava no lado oposto de uma mesa com outra mulher que não a sua primeira namorada, sua noiva, sua ex-mulher. No momento estava perplexo demais para se ver planejando alguma coisa e acabou por ser ele mesmo. Conversaram por duas horas. De frivolidades climáticas a confidências metafísicas. Mas nem um nem outro conseguiu falar de suas experiências românticas. Como se diz que seu casamento acabou porque sua mulher resolveu se entreter de outro alguém? E pior, como se diz que se passou a vida inteira sem nunca amar ninguém? Era já quase nove horas da noite quando ela caiu em si. Assustada com aquela rebeldia contra o cronograma tradicional ela resolveu voltar para casa. Se despediram na porta, ela chegou a oferecer uma carona, mas ele queria voltar à pé. Ela não conseguia se lembrar da última vez que tinha chegado tão tarde em casa, muito menos porque se perdeu conversando com alguém. Já ele tinha esquecido como era conversar. Seu casamento nos últimos anos se resumiu a grunhidos.  Sua ex-mulher malmente o olhava, quem dera falasse com ele. Os dois dormiram como nunca. E enquanto ela cumpria sua rotina pela última vez, ele se refestelava na piscina, agora sem tentar nada mais do que se enrrugar. Depois do trabalho, correu para o café, sem nem perceber que a força que a impulsionava naquela tarde não era a rotina, e ele já estava lá. Ele nem precisou convidá-la. Ela foi direto à sua mesa. Ainda não tinha explicação para tamanho atrevimento. Agia pelo impulso que desconhecia. Impulso esse que, também pela primeira vez, movia aquele romântico desfalecido. Algo nela o acalmou. Quem sabe a dor na perna ou o furacão que revirou sua cabeça tivessem anestesiado seu ímpeto projetista. Dessa vez o assunto foi inevitável. Ele foi o primeiro a desabafar o desastre amoroso. Destapou a falar, do primeiro encontro à noite do dia 31. Ela não demorou muito a contar a história de sua vida amorosa.

Nunca teve uma. Pulou de um relacionamento para o outro sem nem vive-los. O trabalho a consumiu por inteira, não deixara nem uma força para outra coisa, mentia-se ela. Quando ela terminou, perceberam que, de formas tão distantes, chegaram no mesmo fim. Nenhum nunca tinha realmente amado. Ele porque perdeu todo o tempo planejando o que deveria ter vivido, ela porque não viveu qualquer coisa fora de seu escritório. Não sei te dizer como. Nem eles sabem. Se foi o fim avassalador que imobilizou a mania dele de só sonhar, se foi o olhar triste que fez ela se reconhecer, se simplesmente foi. Sendo qual motivo fosse, naquela noite do dia 2 de janeiro de 1996  ele aceitou a carona e às 10:00 da manhã seguinte, nenhum deles tinha acordado.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

1996, a segunda metade

Mas como dizia, ele se arrastava pela orla, triste que só, pobre dele. A vida estava tão distante daquela cabeça que os olhos não viram o carro. Não se pode culpar só a distância dele, temos que admitir que a sonolência dela contribuiu para o encontrão. Não, ele não ficou a beira da morte, ninguém passou a noite acordada olhando para o leito de um hospital todo aparelhado e com várias telas de pontos verdes subindo e descendo. Isso aqui não é escrito pela Glória Peres e muito menos tem um orçamento global. O que aconteceu foi o esperado. Ela se assustou, ele ficou com a perna doendo. Após alguns pedidos de desculpas e uma certa preocupação com o rapaz, após perceberem que não passou de susto, ele voltou a se arrastar e ela finalmente saiu do prédio e foi para o trabalho. O hotel era perto. E ele ainda não tinha conseguido engolir aquilo. Não a localização, mas a existência. Como é que aquela erra e ele é que tem que sair de casa? Anos gastos para se achar o sofá perfeito e as almofadas exatas para agora deitar num quarto padronizado e insosso. A vida tinha mesmo desmoronado e ele tinha as férias inteiras para sorver cada segundo amargo. Depois de se enrugar na piscina o dia todo, na tentativa frustrada de se matar de tédio, ele resolveu tentar dormir. A cabeça batia nos mais variados ritmos étnicos. Todas as tribos africanas eram contempladas pelo ressoar altissonante da sua ressaca. A noite tinha sido uma caminhada sem fim, regada a algum parente de quinto grau de alguém que já esteve na Escócia, mas de passagem. Mas mesmo com um sono de anteontem, não conseguiu pregar o olho. A imagem se repetia com um vigor invejável. Uma, duas, dez, cem, e a imagem não se cansava nunca, impávida, a maldita. Desistiu quando a imaginação resolveu tomar espaço, apresentando outros ângulos à cena. Lembrando de um café gostoso no centro, resolveu, para variar, dar uma caminhada e deixar os atores em posições acrobáticas performáticas terem um pouco de privacidade. Ao chegar nem notou que ela estava lá, aliás, como sempre faz, todo e qualquer dia.  Se o choque adúltero tinha abalado por completo a rotina do nosso romântico, a dela nunca se desviou um centímetro, até mesmo porque a monotonia era tamanha que a possibilidade de algo chocante acontecer era, desconsiderando a margem de erro, zero. Acordava sempre às 6:00, tomava seu café invariavelmente as 6:15, e de banho tomado saía do seu prédio às 7:03, com uma pontualidade de fazer se remoer qualquer londrino. Entrava às 7: 30, almoçava ao meio dia, saía às 18:30, e o grande luxo do seu dia era tomar um na esquina café antes de voltar para casa. Tanta rotina consegue cansa qualquer um.... é melhor deixar o resto pra próxima, e tomar um café em algum lugar por aí.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

1996

Antes de fuxicarmos a vida alheia, é bom descer algumas linhas sobre este ano tão longínquo e talvez desconhecido pelos teus olhos novos. 1996 foi data de distinta euforia pelos rumos econômicos tomados pelo país quando do comando do último dos Imperadores, aquele que não pode ser nomeado (não, querida moça, não confunda com a literatura infantil de seu tempo). Muitos já se encarniçavam pelos beicinhos burgueses e neo-liberais do catedrático, mas a maioria nadava de braçada na maravilha do mundo com 3 zeros a menos e com a pífia realidade cinematográfica (ou em português claro, de Hollywood) da paridade com o dólar. Dá até para sentir falta de Pedro Mallan ('Essa história de recessão no Brasil é lixo, é bullshit') e de frango vendido a R$ 0,99. Quer coisa melhor do que ouvir palavrão em língua estrangeira em país que a maioria nem português fala, comendo asa frita com frango assado e canja de entrada? Mas não falemos de coisas pequenas, vamos nos ater ao que importa. Mil novecentos e noventa e seis foi o ano em que tudo aconteceu. Ele e ela se acharam no mundo. Mas não foi assim tão fácil. Ele nem sempre teve ela do lado. Ela nem sempre teve um lado para se ficar. Era 1º de janeiro daquele ano bom. Bom porque todo novo ano é. Não tem um cristão, ou mesmo anti-cristo, que não acha que dessa vez vai. Que vai, vai. Só que nem sempre para longe do que já se ia.... Ele andava macambúzio pela praia, entupida de pólvora, rosas e paulistanos que até aquela hora faziam fila para pular as três ondinhas. Chorava o fim. Não do ano, mas da vida com lhe era. Nunca se arrependeu tanto de uma surpresa. Antes não tivesse a sorte de conseguir um vôo para casa na véspera do ano novo. Antes não tivesse casado. Ela não se considerava feliz, mas não tinha grandes razões de tristeza. A vida era a de sempre. Do trabalho para o apartamento à beira-mar. Nele para a cama. Dela para o trabalho. A rotina era tanta que não abria espaço nem para sentimentos. Enquanto ele viveu planejando ela planejou uma vez só e viveu do resultado. Ele tinha a imagem da cerimônia do casamento na cabeça já na primeira vez que beijou aquelaoutra. Da carreira à cor do pano de prato, ele tinha decidido tudo. Só a escapadela daquela não estava no script. Já ela teve alguns, mas nenhum que valesse a pena pensar em qualquer coisa, nem mesmo se chegava a gostar deles. O que nenhum dos dois imaginava era que o ano de 1996 ia ser bom. Esse ia.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

E só

Recebi um delicado e sutil, preste atenção. Eu aqui a debochar de mim, brincando com algumas verdades, e recebo o sempre benvindo comentário de que não existem más ações, mas ações, e só. Um singelo puxar de orelha para trazer quem escreve para a profundidade que o tema deve ter, obrigando esse que adora brincar, falar sério. Pois então, falemos.

Todo erro, do menor ao mais catastrófico, realmente nos leva a pensar. Seja para justificá-lo à nossa consciência, seja para tirar algo de construtivo daquilo. Justificativa é fácil, rápido e indolor de se ter. Cinco minutos de um mal-estar no espírito, duas viradas na cama e pronto, vêm o apaziguar da alma, mais rápido e tão fajuto quanto café solúvel, e se fica com a certeza de que a culpa foi da marca do leite que se tomou como criança, que faltava em vitamina B o que lhe falta hoje de vergonha na cara. É o tirar algo que valha que de fato tira o sono. E exatamente por se ter apreendido do ato um algo que sequer gostaria tivesse existido. E aqui reside a atenção buscada pelo enigmático comentário. Ficar a se prender nas adjetivações dos atos, certamente, não levará a coisa alguma. Penitência não resolve o muro. Nada surge daí que não comiseração. O mártir traz para si as almas mais afetas a esse jogo baixo mas patina no mesmo, só aumentando a resistência para os próximos tombos. Fica-se na dor, que por mais verdadeira que seja, nunca foi suficiente para se crescer. O velho ditado pasteuriza um bom bocado do processo, subvertendo a lógica e pondo cor naquilo que não passa de um efeito colateral. Não é da dor que se cresce e sim de como se encara o ato pelo qual tanto dói. A isso, por mais descolado que possa ser, não vale de nada ficar se murmurando que é um pecador, um errante, um malfeitor, com cara de choro e Byron a tira colo. Aceitar o ato, como só ato que é, é ter de encará-lo não apenas como algo concreto, mas como externação consciente e querida de quem agiu, logo, você. E isso é bem mais dolorido do que buscar cafuné pela dó. O crescimento acaba por vir no perceber das limitações que te fizeram ter escolhido agir de tal ou qual maneira. É de fato identificar o porquê para que na próxima encruzilhada o ato que venha a ser tido seja o melhor que você acredita poder ser. Colocar em prática o livro Nietzsche for dummies e ser homem bastante para, eternidade adentro, quantas vezes te porem a escolha na frente, você tomar a mesma. Se tiver de deixar a bufonice de lado, diria que esse tipo de certeza não vem choramingando pelo bobo, parvo, ou menino que se é, mas no enfrentar aquilo que não é mais nada do que ato teu, e só.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Procedimento


No primeiro ato de humildade tido na vida, vem o infeliz questionar o porquê e querer o como. Já que é a primeira vez que tenho o distinto desprazer de perder algumas palavras com este que agora suplica pela resposta que acreditava ter na ponta da língua, em milhões de sinônimos, pincelo o que se consegue. Fez 25. Loiro. Branco. Estatura nem pouca nem muita. Fala. Muito. Vaidoso. Gasta significativa parte da vida tentando estar alinhado, mas de linha isso daqui não tem nem ponto. Teimoso. É bobo em horas inapropriadas, apropriadas. É bobo. Tem de suas inteligências, mas quem as não têm. Anda de um jeito esquisito, escreve de um jeito esquisito, toma café, lê o jornal, comenta do tempo, enfim, pensa que é vivo.
Feito com o máximo de esmero o resumo que se dá para ter, vou ao que tenho de ir. Porque és um parvo. Um míope de si mesmo que só vê no outro platéia, numa encenaçãozinha barata e sem graça de um arremedo de novela mexicana. Agora não me venha com mumunhas a me dizer que quer outra pessoa que não si mesmo ao lado porque quando lado havia, teus olhos se ocupavam com tudo que não fosse a penitente que cumpria a sina.
É sem hora de começar a viver de suas meias palavras, largar esse vazio de insignificante existência, então te aconselho a se valer de um incrível desenvolvimento humano que parece te ser novidade. Terapia. Mas não se preocupe não, a quem se contentou por tantos anos com o pouco que é você, qualquer meia luz que vier será resplandecente, isso no miraculoso dia em que revirar os olhos de dentro para o resto que acontece por aqui. Agora, te aviso, confesso que com gosto, aquela luz que te inundava tomou rumo, meu rapaz. Ponha na conta da tua parvoíce.
É meu porquê, são meus conselhos. Toque-se o procedimento.

 
Diogo Barbazu Labrego
Conselheiro da Secretaria das Idiossincrasias e Filigranas Únicas do Desenvolvimento Humano – SIFUDEHU

 

 
Não posso deixar de me envergonhar com a rispidez de meu colega conselheiro. Tudo bem que o pobre que agora chora às tampas não é exemplo de retidão, mas não creio que o cenário para tamanha escuro. Tem sim de suas inteligências, de sua bondade, de sua doçura. Sensibilidade e carinho acompanham de tempo seus traços. De certo nem sempre pensava nas consequências das palavras, por vezes se perdia em seu próprio turbilhão, e nisto não se encontrava para encontrar o outro, mas nunca por mal. Não há, de fato, maldade. Há um confuso querer beber do mundo e de metódico e encucado que é, ainda não arranjou como verter a cuia sem cair gota, e assim vai sem conseguir sentir o gosto de nada, seco da vontade. Terapia de fato lhe faria bem, a aparar algumas dessas arestas que acabam raspando o carinho que lhe é inerente, o cuidado pelo outro que pauta a vida, as próprias ambições. Um lapidar desta pedra que tem seu brilho. Concordo com o conselho, divirjo no porquê.

Michaela Augusta dos Anjos
Conselheira da Secretaria da Esperança na Racionalidade Adulta – SERA

 

 
Tendo a opinião de ambos mesmo rumo, a despeito do dissonar da causa, que se expeça ofício determinando terapia ao ora suplicante. Notifique-se para o quê de direito. Anote-se nos livros atinentes. Arquive-se decorrido o prazo.

 
Miguel Jorge
Ministro do Desenvolvimento

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Another lonely day


Peguei me lembrando, diante da brabura destes tempos negros, de como eu me comportava em domingos.Tinha 15 anos e era um daqueles bobos que você, menina, ignorava. Tinha arroubos intensos e arrebatadores de uma melancolia sem fim, o que já me deixava ainda mais esquisito do que só a brancura, o aparelho e o fato de ser bobo, porque convenhamos, bobos nessa idade todos somos, mas que moleque de 15 anos sofre, e ainda mais por melancolia... Cumpria o roteiro ultra-romântico a risca, ensaiando os primeiros capítulos da minha vida novela mexicana e passava a tarde pensando nela, fosse quem fosse ela, olhando para a chuva como se fosse a materialização do meu espírito, ouvindo uma música a mais triste que dava pra ser sem ser Legião Urbana, numa sala que até hoje me dá saudades. Dor, muita dor, toda a dor do mundo por aquela que, se sabia que eu existia, ressentia o fato. Não pertencia, obviamente, ao grupinho "garotos-sensação" e os achava todos saídos de uma mistura macabra de Malhação e filme sessão da tarde do mais representativo gênero quarterback/cheerleader/nerd, cabendo a mim, mas claro, o último posto, a contragosto. Passei meu ginásio e quase todo meu colegial ruminando este sentimento ruim de ser sozinho e de fato me chateava porque nenhuma das meninas da época queriam mais nada que só pose de mal. Aonde fica a conversa? Cadê o gostar do outro, o saber do outro? Dez anos depois já não faço o tipo nerd, pelo menos não escancaradamente, mas de novo me vi sentando em uma sala, num domingo que chovia. O problema agora é outro, ainda que a conseqüência seja quase a mesma. Hoje não sofro mais da ignorância da outra parte, mas faço o papel obtuso do que aparentemente não dá a menor para ela, como se personificasse aquele garoto-sensação de antes, só que sem a desculpa de se ter 15 anos. Tive o relacionamento entre os dedos e o vi escorregando lento, inerte demais para perceber a apatia dos dedos, a burrice da ausência, o isolamento em si mesmo. Perdi o que por tanto chorei enquanto crescia e consigo ver a minha antiga cara de desaprovação, amaldiçoando tamanha insensibilidade. Agora o que sobra é fechar para balanço, contabilizando os erros com a ajuda de um corpo de contadores que trabalham 24 horas a fio, com o doído de cada uma das farpas merecidas, tentando saber em que parte me perdi daquele menino adolescente e de seu querer de cuidar, se é que ele algum dia de fato existiu ou já era semente do dramalhão que estava por vir e não passava mais do que monólogo. Bom mesmo seria se tivéssemos uma secretaria para esse tipo de coisa. Alguma coisa encaixada no Ministério do Desenvolvimento, a receber nossas súplicas, apontando em papel passado, timbre oficial, o porquê e como.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Vou me profissionalizar em bafo

Tive a felicidade de ganhar uma noite para não fazer nada nessa quinta feira. Passei 4 horas esparramado na frente da televisão, sem nenhum remorso intelecto cultural, num mar insípido de fútil entretenimento. Fui logo de America's Next Top Model, para entrar de solo na estupidez vazia, e quase tive overdose. Pra que perder tanta água potável com essa gente que só serve para fazer o resto do mundo se achar feio, entrar no cheque especial e te fazer ficar uma hora ansioso para saber se é a loirinha ou a ruiva que sai no último bloco (malditas mulheres bonitas, todas elas!).
Depois desse entupimento de nada nas artérias, acabei me desviando do curso e me peguei prestando atenção em algo que valia a pena, perdi 15 minutos da minha ociosidade assistindo a Grande Família. Mas logo me recuperei em grande estilo quando deixei as olimpíadas tomarem conta do tubo. De longe nada tem a ver com a babaquice de pseudo modeletes que acham que o que não está publicado na Vogue não está no mundo, mas convenhamos que não se exige qualquer esforço intelectivo assistir um bando de marmanjo, (que toda vez que lembro terem 5 anos a menos que eu, me irrito profundamente e me pego perguntado o que é que eu fiz que não estou competindo pelo ouro olímpico), se desembestando a nadar. Vi o sem graça do Phelps ganhar sei lá qual das trocentas medalhas de ouro que o que não sabe perder ganhou.

Depois da crônica do ganhador anunciado encerrei minha ociosidade com chave de ouro, numa emocionante partida de ping pong. E não me venha você em dizer que o correto é tênis de mesa, porque isso não passa de uma tentativa mal remendada de dar verniz de seriedade para o esporte mais ridículo do mundo. Será que sou só eu que quando vejo a mesa, a redinha, mini raquetes e uma micro bolinha de plástico, penso diretamente em infância, e sala de jogos de hotel barato? Primeiro que é uma sacanagem sem fim o fato de fingirem ter competição. Competição de quem? Todos os jogos que eu vi era um japonês contra outro japonês, e a única coisa que mudava era a bandeirinha no canto do vídeo. Estamos numa olimpíada, bilhões de chineses assistindo, junto com o que restou de população e são dois japoneses, frente a frente, intercalados por uma mesícula azul, o foco de toda a atenção. O melhor é todo o mise en scène da coisa, o cuidado no segurar a bolinha na palma da mão como se origami de papel crepon fosse, as quicadas ritmadas e concentradas antes do saque, o olhar fixo nela, pro alto, mãos de shiva e pimba, vai a bolinha, volta a bolinha, vai a bolinha, fica a bolinha. E assim eles vão até que um japonês ganha a partida e todo mundo finge que não se morre de rir por dentro lembrando de quando se tinha 10 anos e ping pong era a única saída para a chuva na casa da praia. Acho que o Brasil poderia inovar nas de 2014 e propor uma nova modalidade de jogo, o triatlon infanto-juvenil, composto de bafo, bolinha de gude e empinação de pipa a distância. Ia botar o ping pong no chinelo.

ps: é só pausa num tema mais dolorido, que já vem, mas que é custoso de sair.

sábado, 1 de março de 2008

Não quero mais saber do apartamento que não é libertação

Eu tenho problemas com meus vizinhos. Eles têm comigo, na verdade. Moro num apartamento honesto, de simpatia agradável, sem muitos rebuscos, mas carinhoso. O duro é que cercado por senhoras. Muitas delas, todas elas, e senhoras, bem senhoras. Nada contra senhoras, que deixe isso muito mais do que claro. Sou daqueles que sorri para velhinhos na rua, acho mesmo a prova mais concreta que dá pra passar pela vida e sobreviver a ela. Mas o problema é a mistura das coisas nestes andares. A senhora maior, com o lustroso título de subsíndica do prédio, é bom exemplo. Já logo no primeiro dia de casa, recebo o susto da campainha. Abro, está ela. Baixinha e brava. Não sei sinceramente dizer qual dos dois adjetivos ganha do outro. Chamemos um empate. Boa tarde rapazinho, ela me diz. Gostei do rapazinho... me senti no pré, sendo repreendido pela tia porque comia o giz de cera da coleguinha do lado (não sei até hoje se o puxalão foi porque tóxicos ou caros). O rapazinho leu os termos de convivência do prédio? Eu li, o pior é que li. Aliás, quase chamei a polícia, ou os marines talvez, passado o choque. Propaganda nazista, para ser delicado. "Não respire perto da janela ou da porta, você pode incomodar. Se com sinusite, evite respirar em qualquer lugar, barulhos são indesejáveis. Ao assistir uma partida de ludopédio não grite, não resmungue, nem murmure, movimente seus lábios o menos que puder. Bebidas são terminantemente proibidas, visitas também. Existem lugares próprios para balbúrdias. Sem libertinagens! Manuel Bandeira é pena capital, dirija-se de imediato ao segundo secretário geral que o lhe proverá com o bom de Alberto de Oliveira e suas lindas descrições de vasos. Pregue pregos se estritamente necessário. Horário permitido: 13:30 a 13:33 das quartas-feiras ímpares dos anos bi-sextos". Essa era minha infração, eu martelava como um desvairado para o horror dos ouvidos vizinhos numa terça-feira, às 18:31. Era um acinte, um achincalhe aos costumes. Cadê o devido respeitos às regras condominiais? Aonde está a ordem? Martelei, na verdade, duas vezes, o suficiente para ser notado e para o deslocar daquele xerife impávido. Leu? Então o mocinho sabe bem que não deveria estar fazendo o que está, a essa hora da noite, atrapalhando o bom e merecido descanso dos seus convivas, bons cidadãos de paz! Mas minha senhora, são 18:31 e tenho só este mísero e minúsculo prego para fixar, sou um trabalhador, tão misero quanto o prego, mas longe de ser tão útil... tenho minhas semanas consumidas pelos donos das coisas, pelos chefes do mundo, pelo homem. Não interessa! Regras são regras. Tome essa seu advogadozinho de merda. Bom, quando então, se por mais que estejamos em ano bi-sexto, minhas quartas ímpares estão ocupadas ano afora pela infelicidade do trabalho? Nunca. E assim foi. Tive de deixar meus quadros na expectativa do dia 11 de março, que clarividentemente me previ uma febre das brabas que preocupará a todos do escritório...

É esse o grande problema das senhoras que me cercam a casa. Elas foram tele-transportadas de uma minas gerais de 235 anos atrás, fundadoras da mais crua e inflexível raiz do TFP. E não tem absolutamente nada para verem de suas janelas. As pessoas passam longe demais da vista. Como se ocupar então? Vamos tornar a vida desse menino insolente em um inferno. Dante terá pena, pena! Quem ele pensa que é para ouvir dessas músicas, a esse volume? E as companhias então? Subversivos, todos eles. Comunistas, comunistas! À fogueira! Assim, meus amigos são contrabandeados quando consigo brecha, após meses de planos, contraplanos e ensaios, e me abastecem a cerveja. Ficamos todos em silêncio e nos comunicamos com blocos de nota e lápis macio. Confesso que me dá saudade deles, mas a sala é boa, e acabei de terminar a mobília. E não sei, mais tem umas músicas do Padre Marcelo Rossi que são até que batutas, viu?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Fé na rampa!

O ano de 2007 veio como uma bala. Straight to the head, or is it the heart? Percebi que se não pegar o dia pelos calcanhares ele te mostra só poeira. Vida de recém formado é prova de fogo, com direito a arcos flamejantes e pulos à morte. Você não tem o que quer, corre feito cabrito para se manter no caminho que acreditar ser o certo para se ter, mas sem ter a certeza de nada, as vezes nem mesmo do que se quer. Adultos, tá bom... Não se têm mais o manto grosso da adolescência para nos aquecer os erros. A cara é tua, o muro está próximo, e indefectível. De tiro no peito, resolvi me enveredar numa corrida boba de fazer de cada minuto algo valoroso. Preciso crescer a toque de caixa, por imposição das minhas próprias pernas, pelo caminho que me coloquei para cabritar. Não cabe mais a calmaria do indefinido, os dias são esquadrinhados a laser. E se você ainda morar num aboletamento engalfinhado de gente, que nem mafagafo sobrevive, aí meu amigo, Jack Bouer é escoteiro mirim perto de você. Queria ver ele passar por estas 24 horas. Levanta-se às 6:03 (não sei você, mas eu sempre coloco alguns minutos mais do que o certo para o acordar, acho que ainda é minha alma de criança chorosa em inverno brabo que grita por mais um tempo na cama). Levantar é mesmo o verbo.... pelo só ato físico de se sair da cama, porque acordado ainda não se está. Ainda sem entender muito bem porque diabos se está de pé quando nem o sol resolveu firmar ainda, com a percepção de um recém nascido, com luzes a explodirem a sonolência teimosa, num estado morto-vivo vampiresco, você se veste. Como você é ainda daqueles que resiste ao massacre, numa utopia bonita de acreditar na possibilidade de um viver saudável sob 375 mil toneladas das partículas mais altamente perigosas que o homem é capaz de produzir, você saí para correr. Corre-se a meia hora conseguida, e emenda (você é xiita) uma academia, espaço que os antigos gostavam de se referir como câmara de tortura inquisicional. É 7:47 e você corre para tua casa. O vislumbre da cama é piada de mal gosto. Banho. 8 minutos. Enquanto uma mão se ocupa dos cabelos a outra te escova os dentes, e a única idéia fixa é a reclamação anotada da falta absurda de uma terceira, que poderia muito bem estar te fazendo a barba. A roupa seria só vestida com mais rapidez se equipada de velcros. De pasta na mão, com mais pinduricalhos que o batman, a corrida agora tem como destino o ponto de ônibus, esse oásis de felicidade, que tenho a certeza, absoluta, de que nenhum mortal jamais teve fagulha de chateação. Eta serviço porreta esse. O relógio bate já 8:20 e nada do abençoado. O suor é de medo. A figura caricata do chefe se mistura à súplicas, berros, estagiários mortos pelo caminho na tentativa do chefe aplacar a sua sede de sangue. 8:35, agora vai. Você e mais 72 pessoas, também felizes, todos numa grande jornada ao sublime. Mantendo a paciência zen-budista, de sorriso complacente no rosto, segue-se pelo sem fim de carros à 0,35 km/h, num enorme cortejo à boa vida.Tudo isso para chegar ao trabalho, que dizem os que nunca precisaram se valer desta prática , enobrece o homem. Só se for o homem dono. Não vou aqui me atrever a pormenorizar estas horas de trabalho, seria muito terror para estômagos fracos, basta ter de vivê-los. Passadas as horas perdidas, se para a maioria dos cristãos o dia acaba, o teu dia pagão ainda tem chão. Nada melhor, depois desse périplo, do que entrar em contato com o saber, este deleite da alma, mas não do resto do corpo. Dá 18:35 e você, já de janta comida num cubículo qualquer que os chefes esqueceram de colocar um estagiário e chamam de copa, arrasta a carcaça para a aula, que em impiedosas 19 horas e 30 minutos, começa. Se não tive coragem de relatar aqui as pequenices do trabalho, não vou conseguir sequer pensar no tempo consumido entre às 19:30 e 22:45. Imaginemos um buraco negro, sugando por seu vórtex toda a felicidade do homem, deixado nada que dor, dor. Em casa pelas 23 horas e sei lá quantos malditos minutos, o pensamento final, a dar o pontapé ao abismo, é a certeza de que o próximo dia será, inexoravelmente, igual. Mas se se tem de andar, e andar é assim, que venha o próximo. Saravá!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

São Paulo II

Choveu no dia 12 de fevereiro em São Paulo. E muito. Pelo andar das 11 horas da noite passava pelo fatídico. Uma dessas árvores que dão a impressão de se prenderem ao núcleo do mundo, mais antigas que o tempo, despencou sem dar tchau, simplesmente caindo. Da árvore, ficou só a irritação do tráfego, que não deu o mesmo cuidado que a luz àquele gigante abatido, que solene rompeu a cortina silenciosa com o único adeus, o estampido forte dos cabos que se encontravam ao caminho, e nada mais. A noite continuou a se perder pela chuva, e o trânsito a reclamar do estorvo.