quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Lembrete

No mais, tudo é menor

Amor não é de tarde, a não ser em alguns dias santos. Só é legítimo quando, depois, se pega no sono. E há um complemento venturoso, do qual alguns se descuidam. O café com leite, de manhã. O lento café com leite dos amantes. No mais, tudo é menor. O socialismo, a astrofísica, a especulação imobiliária, a ioga, todo ascetismo da ioga... O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira.

Antonio Maria, 1963.

sábado, 22 de novembro de 2008

Ah, a Modernidade

Estava na de andar sem juízo, desavisado, sem qualquer respeito pelas regras do bom caminhar, nada de direção, norte, compasso, com um ar que irritava qualquer um de bons-costumes, como se fosse dono de suas pernas, veja você, o despautério, quando se deu.

Se você perguntasse à maioria, teve o que merecia, nessas de andar assim...

Enfiou-se num buraco enorme, escondido dos homens de bem, numa fresta do que é reto. Caiu uma eternidade e meia numa escuridão sem ar, calor ou seja qual sensação fosse; o amortecer. Nem assim gritou, esperneou, caiu só.

Não caia no espaço, mas no tempo, ou pelo menos não neste sideral. O universo todo para o lado de lá daquele negrume sem fim a trilhar o curso; morriam, riam (alguns poucos), amaldiçoavam a chuva, as espinhas, trocavam de carro, de marido, faziam juras de amor, choravam o amor, combinavam cafés. E ele caia.

Foram 100.052 anos dos homens, suficientes para se perder o andar, o gosto do café ou do amor e até mesmo o que ele sabia por homem. Apagou-se da vida de quem fosse, um fantasma encarnado de gente sem nem saber dos costumes que pudesse desdenhar.

Um pouco sem jeito, num passo esquisito agora do atrofiado mais do que do descaso a regra, o primeiro lugar que tentou encontrar foi algum em que se encontrasse, aquele mundo distante de mil séculos atrás que tão incompreendia, mas que tinha de cor. Sabia bem daqueles olhares feios, o balançar rápido, pouco, mas sempre lá, da cabeça, os comentários abafados, os medos todos de quem ousava e dos que temiam até isso. Mas como culpá-los se todos imersos numa angústia enorme de agarrar os segundos saltitantes pelo pescoço, cheios de planos cortados a laser, mas cada um completa e angustiantemente perdido, confundindo necessidade com superficialidade, obstinação com neurose.

Agora era ele que se via perdido em qualquer senda do infinito, essa ou aquela realidade paralela, perpendicular ou espiralada, sem achar partícula que lhe fosse conhecida.

Em um misto de sonho do Dr. Seuss e a mais fabulosa mente hollywoodiana de ficção científica sem cortes de orçamento ou crise a limitar a criatividade, as pessoas que se iam para lá e cá pareciam como que iluminadas. Alguma aura de plenitude circundava a todos, que se riam por besteiras (todos eles), que tinham muito bem certo o que de fato significava besteira. Nada disso tinha a ver com o absurdo tecnológico ou qualquer outro candidato a bálsamo da humanidade, o estandarte mal ajambrado do progresso, quem sabe até de ordem, mas com o achar da essencialidade, do visceral. Em algum ponto distante do desencontro ancestral o caos veio de frente e ninguém mais conseguia falar bom dia sem que um milhão de interpretações fossem feitas, ponderações sopesadas, implicações projetadas, medidas e densificadas e só sobrasse tempo para um boa noite. Os arqueólogos buscam apresentar suas teorias, juntando pedaços de CDs antigos e pendrives recuperados, e de cada byte montam histórias colossais. Não se sabe mais por que, nem como, mas o fato é que de alguma forma conseguiram se desembaraçar daquele nó tão vivamente cultuado pelos que se diziam "modernos".

Recuperado do baque e das pernas, sassaricou por toda viela, biboca e quebrada, parando cada um que tivesse a sorte de cruzar os olhos com ele. Ninguém conseguiu explicar muito bem o que lhe tinha acontecido, nem o que aconteceu com os agora fósseis. Ninguém também mostrou muita lá preocupação com o causo, ou mesmo com os porquês. Para que se esquentar com isso, ouviu tantas vezes, se o que só é preciso é se permitir viver. Se permitir viver, sem os diz-que-me-dizem tanto, as fobias, encruzilhadas, retornos, atalhos, sem cobrança de prazos, metas, objetivos, como se a angústia do mundo tivesse sido geneticamente retirada de cada DNA de qualquer algo vivo, tendo bem a diferença sem fim entre responsabilidade e cruz. Enquanto ele recuperava o passo e se partia nesse mundo sem o rumo fincado a estaca, numa leveza de não sofrer para o onde, como e quando, marcados no script e distribuídos em cinco vias registradas, na liberdade de se deixar surpreender, seus companheiros de trabalho já organizavam reuniões periódicas, para se eleger o representante do grupo de buscas. Estavam na 25ª reunião, mas ainda tinham muito pela frente. Temas como a marca e intensidade do pó do café servido e se rodariam o ônus de oferecer a casa em sentindo alfabético ou zonal ainda não tinham sido enfrentados. Todos estavam ansiosos, na angústia de preverem que em 30 ou 40 reuniões a mais, teriam de contatar os familiares, e um subgrupo já estava se formando para determinar se seria a mãe, ou o irmão o primeiro a ser avisado.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

São Paulo III

De frente para um posto de gasolina, numa travessa tímida da Av. Sumaré, entre um prédio entediado e uma churrascaria/pizzaria/bar-dançante/karaokê de sextas e sábados, tem uma casa que de quartas-feiras a noite se ilumina de sala amarela alaranjada. De dama-da-noite vestido primavera, cerca de muro (baixo) e palmas abertas, se põe como velha sem se acabar, orgulhosa das rugas, de jardim a esbofetear a cara, ainda que com toda madura gentileza, deste caipira morador de apartamento que só faz imaginar como este pedacinho de cidade distante veio se encaixotar nesta cidade de tantos pedacinhos...

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

3 séculos a mais

Tem desses dias que nos perdemos nas pernas. As pernas que te faz, sem ver, olhar para a torre de muito amiga, num devagar sem arrastamento, um prolongar. Pode-se culpar de tudo. A bolsa, o Kassab, o mar de prazos, folhas e batidas frenéticas de teclado, pode-se culpar aquela palavra ou esse silêncio, culpa sempre se arranja, a pesar os joelhos. Não me ative nela, fui segurado pelo aperto. Esse sabe-que-lá já velho e muito conhecido. Um inconfundível nó nalgum lugar entre a tireóide e a traquéia. Esse miolo de pão que não desce seja quanta água for. O tema era o surrado desagrado do sozinho. A saudade do cheiro que não circunda mais, assombra. A pele, aquela pele. A ausência do ser cúmplice. Do ouvir o desembestar de qualquer história, a risada, o respiro, os pequenos barulhos. Era para pegar o ônibus, mas de aperto bastava o meu. Foram-se as pernas para o calor, sem dar a menor para os sapatos sola fina, o terno tecido grosso, convenções de medida da distância.

No randômico das mil músicas, a angústia durou 3, talvez 4. Eu já no automático da cena esperava pelo choro que não veio. Perdido e sem script até forcei uma, mas nada de nem furtiva lágrima. Me peguei gostando da batida pernambucana do Lenine, do ar da chuva que nunca mais desconjuro depois da secura impregnada nas narinas por 30 dias de cerrado. Já pelas pernas da Avenida, olhando o infinito dos tantos carros, a pergunta não era mais do que não tinha, mas de que filme a segunda-feira da 2001 me tinha deixado. Me vi no gostoso de Zelig de Woody Allen, da pipoca gorda nada de light e muita manteiga, no abençoar da chuva que veio na hora certa, na hora que quis.

Descobri nessa noite que o Word publica, a blockbuster nem pipoca tem mais, o x-salada com ovo vale uma dezena de reais e trinta minutos de esteira. Claro que o perfume é bom e falta pelo ar. Não perdi o querer. Perdi é o atropelo desesperado, como se tivesse lavado das mãos o encardido com a última gota d'água que me foi agraciada. Acho que perdi o ultra e estacionei no só romântico. Só é bom também, é bom também.

sábado, 11 de outubro de 2008

1996, a metade inteira

Não sei se foi o sono, ou se foi mesmo destino, afinal não se pode fechar os olhos para a tremenda coincidência. Em menos de 12 horas, ele bateria a mesma perna, e de novo, nalguma coisa dela. Andando para o fundo do café, ele nem viu a pasta colocada ao lado da cadeira. Foi um desastre. Antes a batida tivesse apenas machucado a perna que já estava sensível. Mas quando se pode ter resultados catastróficos, para que a simplicidade? A pasta escorregou pelo salão, parando apenas no garçom que trazia o café preto, sem açúcar, e dois pães de queijo que ela sempre pede. Com os olhos fechados para impedi-lo de assistir o desastre, ele viu só resultado. Um garçom estirado no chão, atônito pelo surgimento de uma pasta expressa fazendo caminho no meio do salão, um café esparramado e dois pães de queijo rolando para baixo da mesa. Ele púrpura de vergonha pede desculpas para a moça, para o garçom, para os demais telespectadores e não sabe se devolve a pasta, levanta o atendente, procura pelos pães de queijo ou corre desesperado até a cidade vizinha e nunca mais volta naquele café. Enquanto olhava para a porta, calculando a velocidade média necessária para uma fuga perfeita, o garçom já tinha se levantado e ela, olhando para aquela figura desolada, pergunta se tinha doído. Nunca conseguiu entender o porquê da pergunta. Não era de conversar com ninguém, muito menos com alguém que chutasse sua pasta e derrubasse seu café. Mas alguma coisa naquele rosto triste, naquele ar de desamparo a despertou. Era como se pela primeira vez tivesse olhado no espelho e visto nada mais que tristeza. Ele demorou para entender o que acontecia. De todas as alternativas previstas esta nem sequer passou pela sua cabeça. Olhou para aquela mulher bonita, que se esforçava para contrariar essa natureza a todo custo e, sorrindo pela primeira vez em dois dias, disse não. Senta, convidou ela desacreditando nas próprias palavras. Assim você me paga o café que me fez perder. Sentou. Pela primeira vez estava no lado oposto de uma mesa com outra mulher que não a sua primeira namorada, sua noiva, sua ex-mulher. No momento estava perplexo demais para se ver planejando alguma coisa e acabou por ser ele mesmo. Conversaram por duas horas. De frivolidades climáticas a confidências metafísicas. Mas nem um nem outro conseguiu falar de suas experiências românticas. Como se diz que seu casamento acabou porque sua mulher resolveu se entreter de outro alguém? E pior, como se diz que se passou a vida inteira sem nunca amar ninguém? Era já quase nove horas da noite quando ela caiu em si. Assustada com aquela rebeldia contra o cronograma tradicional ela resolveu voltar para casa. Se despediram na porta, ela chegou a oferecer uma carona, mas ele queria voltar à pé. Ela não conseguia se lembrar da última vez que tinha chegado tão tarde em casa, muito menos porque se perdeu conversando com alguém. Já ele tinha esquecido como era conversar. Seu casamento nos últimos anos se resumiu a grunhidos.  Sua ex-mulher malmente o olhava, quem dera falasse com ele. Os dois dormiram como nunca. E enquanto ela cumpria sua rotina pela última vez, ele se refestelava na piscina, agora sem tentar nada mais do que se enrrugar. Depois do trabalho, correu para o café, sem nem perceber que a força que a impulsionava naquela tarde não era a rotina, e ele já estava lá. Ele nem precisou convidá-la. Ela foi direto à sua mesa. Ainda não tinha explicação para tamanho atrevimento. Agia pelo impulso que desconhecia. Impulso esse que, também pela primeira vez, movia aquele romântico desfalecido. Algo nela o acalmou. Quem sabe a dor na perna ou o furacão que revirou sua cabeça tivessem anestesiado seu ímpeto projetista. Dessa vez o assunto foi inevitável. Ele foi o primeiro a desabafar o desastre amoroso. Destapou a falar, do primeiro encontro à noite do dia 31. Ela não demorou muito a contar a história de sua vida amorosa.

Nunca teve uma. Pulou de um relacionamento para o outro sem nem vive-los. O trabalho a consumiu por inteira, não deixara nem uma força para outra coisa, mentia-se ela. Quando ela terminou, perceberam que, de formas tão distantes, chegaram no mesmo fim. Nenhum nunca tinha realmente amado. Ele porque perdeu todo o tempo planejando o que deveria ter vivido, ela porque não viveu qualquer coisa fora de seu escritório. Não sei te dizer como. Nem eles sabem. Se foi o fim avassalador que imobilizou a mania dele de só sonhar, se foi o olhar triste que fez ela se reconhecer, se simplesmente foi. Sendo qual motivo fosse, naquela noite do dia 2 de janeiro de 1996  ele aceitou a carona e às 10:00 da manhã seguinte, nenhum deles tinha acordado.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

1996, a segunda metade

Mas como dizia, ele se arrastava pela orla, triste que só, pobre dele. A vida estava tão distante daquela cabeça que os olhos não viram o carro. Não se pode culpar só a distância dele, temos que admitir que a sonolência dela contribuiu para o encontrão. Não, ele não ficou a beira da morte, ninguém passou a noite acordada olhando para o leito de um hospital todo aparelhado e com várias telas de pontos verdes subindo e descendo. Isso aqui não é escrito pela Glória Peres e muito menos tem um orçamento global. O que aconteceu foi o esperado. Ela se assustou, ele ficou com a perna doendo. Após alguns pedidos de desculpas e uma certa preocupação com o rapaz, após perceberem que não passou de susto, ele voltou a se arrastar e ela finalmente saiu do prédio e foi para o trabalho. O hotel era perto. E ele ainda não tinha conseguido engolir aquilo. Não a localização, mas a existência. Como é que aquela erra e ele é que tem que sair de casa? Anos gastos para se achar o sofá perfeito e as almofadas exatas para agora deitar num quarto padronizado e insosso. A vida tinha mesmo desmoronado e ele tinha as férias inteiras para sorver cada segundo amargo. Depois de se enrugar na piscina o dia todo, na tentativa frustrada de se matar de tédio, ele resolveu tentar dormir. A cabeça batia nos mais variados ritmos étnicos. Todas as tribos africanas eram contempladas pelo ressoar altissonante da sua ressaca. A noite tinha sido uma caminhada sem fim, regada a algum parente de quinto grau de alguém que já esteve na Escócia, mas de passagem. Mas mesmo com um sono de anteontem, não conseguiu pregar o olho. A imagem se repetia com um vigor invejável. Uma, duas, dez, cem, e a imagem não se cansava nunca, impávida, a maldita. Desistiu quando a imaginação resolveu tomar espaço, apresentando outros ângulos à cena. Lembrando de um café gostoso no centro, resolveu, para variar, dar uma caminhada e deixar os atores em posições acrobáticas performáticas terem um pouco de privacidade. Ao chegar nem notou que ela estava lá, aliás, como sempre faz, todo e qualquer dia.  Se o choque adúltero tinha abalado por completo a rotina do nosso romântico, a dela nunca se desviou um centímetro, até mesmo porque a monotonia era tamanha que a possibilidade de algo chocante acontecer era, desconsiderando a margem de erro, zero. Acordava sempre às 6:00, tomava seu café invariavelmente as 6:15, e de banho tomado saía do seu prédio às 7:03, com uma pontualidade de fazer se remoer qualquer londrino. Entrava às 7: 30, almoçava ao meio dia, saía às 18:30, e o grande luxo do seu dia era tomar um na esquina café antes de voltar para casa. Tanta rotina consegue cansa qualquer um.... é melhor deixar o resto pra próxima, e tomar um café em algum lugar por aí.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

1996

Antes de fuxicarmos a vida alheia, é bom descer algumas linhas sobre este ano tão longínquo e talvez desconhecido pelos teus olhos novos. 1996 foi data de distinta euforia pelos rumos econômicos tomados pelo país quando do comando do último dos Imperadores, aquele que não pode ser nomeado (não, querida moça, não confunda com a literatura infantil de seu tempo). Muitos já se encarniçavam pelos beicinhos burgueses e neo-liberais do catedrático, mas a maioria nadava de braçada na maravilha do mundo com 3 zeros a menos e com a pífia realidade cinematográfica (ou em português claro, de Hollywood) da paridade com o dólar. Dá até para sentir falta de Pedro Mallan ('Essa história de recessão no Brasil é lixo, é bullshit') e de frango vendido a R$ 0,99. Quer coisa melhor do que ouvir palavrão em língua estrangeira em país que a maioria nem português fala, comendo asa frita com frango assado e canja de entrada? Mas não falemos de coisas pequenas, vamos nos ater ao que importa. Mil novecentos e noventa e seis foi o ano em que tudo aconteceu. Ele e ela se acharam no mundo. Mas não foi assim tão fácil. Ele nem sempre teve ela do lado. Ela nem sempre teve um lado para se ficar. Era 1º de janeiro daquele ano bom. Bom porque todo novo ano é. Não tem um cristão, ou mesmo anti-cristo, que não acha que dessa vez vai. Que vai, vai. Só que nem sempre para longe do que já se ia.... Ele andava macambúzio pela praia, entupida de pólvora, rosas e paulistanos que até aquela hora faziam fila para pular as três ondinhas. Chorava o fim. Não do ano, mas da vida com lhe era. Nunca se arrependeu tanto de uma surpresa. Antes não tivesse a sorte de conseguir um vôo para casa na véspera do ano novo. Antes não tivesse casado. Ela não se considerava feliz, mas não tinha grandes razões de tristeza. A vida era a de sempre. Do trabalho para o apartamento à beira-mar. Nele para a cama. Dela para o trabalho. A rotina era tanta que não abria espaço nem para sentimentos. Enquanto ele viveu planejando ela planejou uma vez só e viveu do resultado. Ele tinha a imagem da cerimônia do casamento na cabeça já na primeira vez que beijou aquelaoutra. Da carreira à cor do pano de prato, ele tinha decidido tudo. Só a escapadela daquela não estava no script. Já ela teve alguns, mas nenhum que valesse a pena pensar em qualquer coisa, nem mesmo se chegava a gostar deles. O que nenhum dos dois imaginava era que o ano de 1996 ia ser bom. Esse ia.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

E só

Recebi um delicado e sutil, preste atenção. Eu aqui a debochar de mim, brincando com algumas verdades, e recebo o sempre benvindo comentário de que não existem más ações, mas ações, e só. Um singelo puxar de orelha para trazer quem escreve para a profundidade que o tema deve ter, obrigando esse que adora brincar, falar sério. Pois então, falemos.

Todo erro, do menor ao mais catastrófico, realmente nos leva a pensar. Seja para justificá-lo à nossa consciência, seja para tirar algo de construtivo daquilo. Justificativa é fácil, rápido e indolor de se ter. Cinco minutos de um mal-estar no espírito, duas viradas na cama e pronto, vêm o apaziguar da alma, mais rápido e tão fajuto quanto café solúvel, e se fica com a certeza de que a culpa foi da marca do leite que se tomou como criança, que faltava em vitamina B o que lhe falta hoje de vergonha na cara. É o tirar algo que valha que de fato tira o sono. E exatamente por se ter apreendido do ato um algo que sequer gostaria tivesse existido. E aqui reside a atenção buscada pelo enigmático comentário. Ficar a se prender nas adjetivações dos atos, certamente, não levará a coisa alguma. Penitência não resolve o muro. Nada surge daí que não comiseração. O mártir traz para si as almas mais afetas a esse jogo baixo mas patina no mesmo, só aumentando a resistência para os próximos tombos. Fica-se na dor, que por mais verdadeira que seja, nunca foi suficiente para se crescer. O velho ditado pasteuriza um bom bocado do processo, subvertendo a lógica e pondo cor naquilo que não passa de um efeito colateral. Não é da dor que se cresce e sim de como se encara o ato pelo qual tanto dói. A isso, por mais descolado que possa ser, não vale de nada ficar se murmurando que é um pecador, um errante, um malfeitor, com cara de choro e Byron a tira colo. Aceitar o ato, como só ato que é, é ter de encará-lo não apenas como algo concreto, mas como externação consciente e querida de quem agiu, logo, você. E isso é bem mais dolorido do que buscar cafuné pela dó. O crescimento acaba por vir no perceber das limitações que te fizeram ter escolhido agir de tal ou qual maneira. É de fato identificar o porquê para que na próxima encruzilhada o ato que venha a ser tido seja o melhor que você acredita poder ser. Colocar em prática o livro Nietzsche for dummies e ser homem bastante para, eternidade adentro, quantas vezes te porem a escolha na frente, você tomar a mesma. Se tiver de deixar a bufonice de lado, diria que esse tipo de certeza não vem choramingando pelo bobo, parvo, ou menino que se é, mas no enfrentar aquilo que não é mais nada do que ato teu, e só.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Procedimento


No primeiro ato de humildade tido na vida, vem o infeliz questionar o porquê e querer o como. Já que é a primeira vez que tenho o distinto desprazer de perder algumas palavras com este que agora suplica pela resposta que acreditava ter na ponta da língua, em milhões de sinônimos, pincelo o que se consegue. Fez 25. Loiro. Branco. Estatura nem pouca nem muita. Fala. Muito. Vaidoso. Gasta significativa parte da vida tentando estar alinhado, mas de linha isso daqui não tem nem ponto. Teimoso. É bobo em horas inapropriadas, apropriadas. É bobo. Tem de suas inteligências, mas quem as não têm. Anda de um jeito esquisito, escreve de um jeito esquisito, toma café, lê o jornal, comenta do tempo, enfim, pensa que é vivo.
Feito com o máximo de esmero o resumo que se dá para ter, vou ao que tenho de ir. Porque és um parvo. Um míope de si mesmo que só vê no outro platéia, numa encenaçãozinha barata e sem graça de um arremedo de novela mexicana. Agora não me venha com mumunhas a me dizer que quer outra pessoa que não si mesmo ao lado porque quando lado havia, teus olhos se ocupavam com tudo que não fosse a penitente que cumpria a sina.
É sem hora de começar a viver de suas meias palavras, largar esse vazio de insignificante existência, então te aconselho a se valer de um incrível desenvolvimento humano que parece te ser novidade. Terapia. Mas não se preocupe não, a quem se contentou por tantos anos com o pouco que é você, qualquer meia luz que vier será resplandecente, isso no miraculoso dia em que revirar os olhos de dentro para o resto que acontece por aqui. Agora, te aviso, confesso que com gosto, aquela luz que te inundava tomou rumo, meu rapaz. Ponha na conta da tua parvoíce.
É meu porquê, são meus conselhos. Toque-se o procedimento.

 
Diogo Barbazu Labrego
Conselheiro da Secretaria das Idiossincrasias e Filigranas Únicas do Desenvolvimento Humano – SIFUDEHU

 

 
Não posso deixar de me envergonhar com a rispidez de meu colega conselheiro. Tudo bem que o pobre que agora chora às tampas não é exemplo de retidão, mas não creio que o cenário para tamanha escuro. Tem sim de suas inteligências, de sua bondade, de sua doçura. Sensibilidade e carinho acompanham de tempo seus traços. De certo nem sempre pensava nas consequências das palavras, por vezes se perdia em seu próprio turbilhão, e nisto não se encontrava para encontrar o outro, mas nunca por mal. Não há, de fato, maldade. Há um confuso querer beber do mundo e de metódico e encucado que é, ainda não arranjou como verter a cuia sem cair gota, e assim vai sem conseguir sentir o gosto de nada, seco da vontade. Terapia de fato lhe faria bem, a aparar algumas dessas arestas que acabam raspando o carinho que lhe é inerente, o cuidado pelo outro que pauta a vida, as próprias ambições. Um lapidar desta pedra que tem seu brilho. Concordo com o conselho, divirjo no porquê.

Michaela Augusta dos Anjos
Conselheira da Secretaria da Esperança na Racionalidade Adulta – SERA

 

 
Tendo a opinião de ambos mesmo rumo, a despeito do dissonar da causa, que se expeça ofício determinando terapia ao ora suplicante. Notifique-se para o quê de direito. Anote-se nos livros atinentes. Arquive-se decorrido o prazo.

 
Miguel Jorge
Ministro do Desenvolvimento

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Another lonely day


Peguei me lembrando, diante da brabura destes tempos negros, de como eu me comportava em domingos.Tinha 15 anos e era um daqueles bobos que você, menina, ignorava. Tinha arroubos intensos e arrebatadores de uma melancolia sem fim, o que já me deixava ainda mais esquisito do que só a brancura, o aparelho e o fato de ser bobo, porque convenhamos, bobos nessa idade todos somos, mas que moleque de 15 anos sofre, e ainda mais por melancolia... Cumpria o roteiro ultra-romântico a risca, ensaiando os primeiros capítulos da minha vida novela mexicana e passava a tarde pensando nela, fosse quem fosse ela, olhando para a chuva como se fosse a materialização do meu espírito, ouvindo uma música a mais triste que dava pra ser sem ser Legião Urbana, numa sala que até hoje me dá saudades. Dor, muita dor, toda a dor do mundo por aquela que, se sabia que eu existia, ressentia o fato. Não pertencia, obviamente, ao grupinho "garotos-sensação" e os achava todos saídos de uma mistura macabra de Malhação e filme sessão da tarde do mais representativo gênero quarterback/cheerleader/nerd, cabendo a mim, mas claro, o último posto, a contragosto. Passei meu ginásio e quase todo meu colegial ruminando este sentimento ruim de ser sozinho e de fato me chateava porque nenhuma das meninas da época queriam mais nada que só pose de mal. Aonde fica a conversa? Cadê o gostar do outro, o saber do outro? Dez anos depois já não faço o tipo nerd, pelo menos não escancaradamente, mas de novo me vi sentando em uma sala, num domingo que chovia. O problema agora é outro, ainda que a conseqüência seja quase a mesma. Hoje não sofro mais da ignorância da outra parte, mas faço o papel obtuso do que aparentemente não dá a menor para ela, como se personificasse aquele garoto-sensação de antes, só que sem a desculpa de se ter 15 anos. Tive o relacionamento entre os dedos e o vi escorregando lento, inerte demais para perceber a apatia dos dedos, a burrice da ausência, o isolamento em si mesmo. Perdi o que por tanto chorei enquanto crescia e consigo ver a minha antiga cara de desaprovação, amaldiçoando tamanha insensibilidade. Agora o que sobra é fechar para balanço, contabilizando os erros com a ajuda de um corpo de contadores que trabalham 24 horas a fio, com o doído de cada uma das farpas merecidas, tentando saber em que parte me perdi daquele menino adolescente e de seu querer de cuidar, se é que ele algum dia de fato existiu ou já era semente do dramalhão que estava por vir e não passava mais do que monólogo. Bom mesmo seria se tivéssemos uma secretaria para esse tipo de coisa. Alguma coisa encaixada no Ministério do Desenvolvimento, a receber nossas súplicas, apontando em papel passado, timbre oficial, o porquê e como.