Um centro de choro cantado, a te inundar de felicidade, entre um gole de frango e um pedaço de cerveja, de frente para a bolsa, rodeado de Jorges nem todos santos. E eles chamam isso de sábado à tarde.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
A última noite de um homem
baseado em uma história real
Marco Antônio é trabalhador. Passa das suas 24 horas, 10 no trânsito e 18 no escritório, façanha que só trabalhadores latino-americanos e uma ou outra propaganda de banco conseguem. Careca sem nunca ter tido genética que lhe fardasse a falta, arcado pelos ombros pesados de uma inércia que parece aumentada cada vez que Maria Eulália, da contabilidade bloco "c", às 15:25 de todo dia, resolve trancar o ar condicionado a agradáveis 25ºC. Chegado da provação automotiva, gravata dependurada pelo sedoso do desespero, Marco Antônio se enfia no seu loft (maneira bacana de vender alguma coisa que não tem espaço para ter nem quarto, nem sala, nem nada e que chamar de apartamento é, até mesmo para as empreiteiras, sacanagem demais, já que uma palavra enorme para simbolizar coisa desse tamanho).
Chave no chaveiro, paletó no cabideiro, sapatos no sapateiro e Marco Antônio se aboleta por alguns minutos de frente à televisão, para o ver de outras desgraças que não as próprias, retumbantes em voz grave de 19 horas. Ouvida a voz do Brasil, vai preparar seu jantar, esquentando alguma coisa que sobrou da última vez que teve forças para de fato cozinhar, e não se valer de sobras, enlatados, encaixotados ou outro placebo culinário.
Quando já tudo na sua devida panela, todas no fogão, Marco Antônio faz a decisão que mudou sua noite, não, sua vida. Encasqueta de lavar as mãos pela 35ª vez na pia do banheiro ao invés de se valer do detergente neutro mesmo. Seria transgressão demais para este cidadão pagador de seus impostos, amante de planilhas e avesso a qualquer ato de rebeldia ou enfrentamento que ultrapasse o dormir sem meias, o mandar às favas essa imposição moderna de se ter de usar cada coisa com um específico e único propósito, como se o mundo fosse confeccionado para cada detalhe e suposta necessidade, de sabonete adstringente hidratante de rosto tipo semi-oleoso a bucha para copos fundos de bordas finas exclusivos para cerveja pilsen que não européia.
Foi ao banheiro, pegou o sabonete para mãos secas quando, olhando entre o porta-revistas e a lixeira para banheiro tamanho pequeno de tampa basculante, viu algo que não devia estar ali. Sem querer acreditar muito, Marco Antônio chega um pouco mais perto do que devia do algo estranho ao seu banheiro branco ascético e com os olhos fixos por todos aqueles segundos tem a comprovação que não queria ter tido, quando a coisa mexe das suas anteninhas. Era uma barata. Marco Antônio não gosta de baratas, Marco Antônio tem asco, repúdio, medo mesmo, de baratas. No mexer perto demais daquelas malditas e irritantemente finas e compridas antenas, Marco Antônio faz pular o sabonete para mãos ressecadas pelo ar de seu banheiro conjugado a quarto e sala e o revolucionário do utensílio higiênico, subvertendo sua única finalidade, acaba a se valer para pôr Marco Antônio ao chão, ainda mais perto do que devia da barata.
Barata e Marco Antônio ambos descontrolados se debatem no meio metro quadrado de banheiro, tentando se recuperarem do susto de terem um mamífero e um invertebrado, cada um, dividindo o ladrilho.
Passados poucos segundos de terror, Marco Antônio conseguiu reaver os movimentos das pernas, e se pôs logo de pé, procurando por onde tinha ido a infeliz da barata, para tentar ficar o mais longe possível. Nada. Era a brecha para recuar até campo mais seguro e achar qualquer coisa que pudesse ser atirada de longe contra o inimigo. Como posso com isso, se até bomba nuclear não mata, pensou Marco Antônio, quando procurava pelo sapato mais pesado que tinha. De botina para dias de campo e clima enlameado em punho, foi o infeliz a procura do desafortunado do inseto. Logo na mini sala, entre mesa e sofá, estava lá, olhando destemida, toda antenas, quando em um instinto primitivo de milhares e milhares de anos de ataque e proteção contra os infortúnios da natureza, Marco Antônio deixou de lado o asco, o nojo, o medo mesmo, e se foi para o confronto direto. Nem barata nem Marco Antônio desviaram sua rota, inexplicavelmente. Barata anda cada vez mais descarada nesses dias, é essa impunidade toda, ralhou o primata. Deu todas as botinadas que pôde dar, no caso duas lançadas à distância e a barata sobreviveu a todas, o que não se pode dizer do seu vaso de cristal húngaro para dias festivos e finos e dos porta-cds empilhados no único espaço livre entre mini system e hack para televisão. Voaram trilhões de minúsculos caquinhos por toda a sala, o que não é difícil, mas ainda assim irrita, misturando-se na balburdia das centenas de CDs espalhados pelo chão, acabando com horas de organização alfabética e zelo no trato da superfície argenta-espelhada dos redondinhos queridos. Se a carcaça deixasse, Marco Antônio veria a barata se rolando de rir do episódio e da vantagem estratégica da criação de inúmeras trincheiras de plástico, com o benefícios de um campo minado de mil cacos a intimidar o inimigo. Se limitou só a rir e a se esconder, deixando o civilizado do morador emputecido o suficiente para destituí-lo de qualquer senso de limite, razão ou adequação. Já nas tampas, olhando para todos os cacos, todas as capas, CDs e barata, de novo, sumida, Marco Antônio perde o contato que tinha com a normalidade dos homens e faz de seu fim o fim da barata. Munido de martelo para pregos anelados 19x36 passou a marretar toda a sala/quarto, já sem nenhum carinho por CD que fosse, nem mesmo pela coleção de pequenos animaizinhos de porcelana dispostos na terceira prateleira de cima para baixo, pelo carpete de madeira imitação imbuia, por nada. Tudo era uma imensa barata, a ser aniquilada. Foram muitas, foram várias as marretadas, e a única coisa que Marco Antônio conseguiu foi a completa destruição de todos os badulaques acumulados pelos anos e a ira dos vizinhos, que já ligavam para a polícia, para o Juqueri, para o que viesse primeiro e mais armado.
Os bombeiros chegaram 15 minutos depois de Marco Antônio ser levado sedado para o Hospital Psiquiátrico de Franco da Rocha, após ter levado abaixo três enfermeiros, duas vizinhas encheridas e o poodle do flat 32 B. Tiveram um pouco de dificuldade para acalmar as chamas propiciadas por uma quantidade nunca vista de inseticida e fluído de isqueiro, último ato livre que Marco Antônio teve em vida, hoje bem instalado num 2x2 acolchoadamente aconchegante, de vizinhança tranqüila.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Essa mancha nenhum tira
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Lembrete
No mais, tudo é menor
Amor não é de tarde, a não ser em alguns dias santos. Só é legítimo quando, depois, se pega no sono. E há um complemento venturoso, do qual alguns se descuidam. O café com leite, de manhã. O lento café com leite dos amantes. No mais, tudo é menor. O socialismo, a astrofísica, a especulação imobiliária, a ioga, todo ascetismo da ioga... O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira.
Antonio Maria, 1963.
sábado, 22 de novembro de 2008
Ah, a Modernidade
Estava na de andar sem juízo, desavisado, sem qualquer respeito pelas regras do bom caminhar, nada de direção, norte, compasso, com um ar que irritava qualquer um de bons-costumes, como se fosse dono de suas pernas, veja você, o despautério, quando se deu.
Se você perguntasse à maioria, teve o que merecia, nessas de andar assim...
Enfiou-se num buraco enorme, escondido dos homens de bem, numa fresta do que é reto. Caiu uma eternidade e meia numa escuridão sem ar, calor ou seja qual sensação fosse; o amortecer. Nem assim gritou, esperneou, caiu só.
Não caia no espaço, mas no tempo, ou pelo menos não neste sideral. O universo todo para o lado de lá daquele negrume sem fim a trilhar o curso; morriam, riam (alguns poucos), amaldiçoavam a chuva, as espinhas, trocavam de carro, de marido, faziam juras de amor, choravam o amor, combinavam cafés. E ele caia.
Foram 100.052 anos dos homens, suficientes para se perder o andar, o gosto do café ou do amor e até mesmo o que ele sabia por homem. Apagou-se da vida de quem fosse, um fantasma encarnado de gente sem nem saber dos costumes que pudesse desdenhar.
Um pouco sem jeito, num passo esquisito agora do atrofiado mais do que do descaso a regra, o primeiro lugar que tentou encontrar foi algum em que se encontrasse, aquele mundo distante de mil séculos atrás que tão incompreendia, mas que tinha de cor. Sabia bem daqueles olhares feios, o balançar rápido, pouco, mas sempre lá, da cabeça, os comentários abafados, os medos todos de quem ousava e dos que temiam até isso. Mas como culpá-los se todos imersos numa angústia enorme de agarrar os segundos saltitantes pelo pescoço, cheios de planos cortados a laser, mas cada um completa e angustiantemente perdido, confundindo necessidade com superficialidade, obstinação com neurose.
Agora era ele que se via perdido em qualquer senda do infinito, essa ou aquela realidade paralela, perpendicular ou espiralada, sem achar partícula que lhe fosse conhecida.
Em um misto de sonho do Dr. Seuss e a mais fabulosa mente hollywoodiana de ficção científica sem cortes de orçamento ou crise a limitar a criatividade, as pessoas que se iam para lá e cá pareciam como que iluminadas. Alguma aura de plenitude circundava a todos, que se riam por besteiras (todos eles), que tinham muito bem certo o que de fato significava besteira. Nada disso tinha a ver com o absurdo tecnológico ou qualquer outro candidato a bálsamo da humanidade, o estandarte mal ajambrado do progresso, quem sabe até de ordem, mas com o achar da essencialidade, do visceral. Em algum ponto distante do desencontro ancestral o caos veio de frente e ninguém mais conseguia falar bom dia sem que um milhão de interpretações fossem feitas, ponderações sopesadas, implicações projetadas, medidas e densificadas e só sobrasse tempo para um boa noite. Os arqueólogos buscam apresentar suas teorias, juntando pedaços de CDs antigos e pendrives recuperados, e de cada byte montam histórias colossais. Não se sabe mais por que, nem como, mas o fato é que de alguma forma conseguiram se desembaraçar daquele nó tão vivamente cultuado pelos que se diziam "modernos".
Recuperado do baque e das pernas, sassaricou por toda viela, biboca e quebrada, parando cada um que tivesse a sorte de cruzar os olhos com ele. Ninguém conseguiu explicar muito bem o que lhe tinha acontecido, nem o que aconteceu com os agora fósseis. Ninguém também mostrou muita lá preocupação com o causo, ou mesmo com os porquês. Para que se esquentar com isso, ouviu tantas vezes, se o que só é preciso é se permitir viver. Se permitir viver, sem os diz-que-me-dizem tanto, as fobias, encruzilhadas, retornos, atalhos, sem cobrança de prazos, metas, objetivos, como se a angústia do mundo tivesse sido geneticamente retirada de cada DNA de qualquer algo vivo, tendo bem a diferença sem fim entre responsabilidade e cruz. Enquanto ele recuperava o passo e se partia nesse mundo sem o rumo fincado a estaca, numa leveza de não sofrer para o onde, como e quando, marcados no script e distribuídos em cinco vias registradas, na liberdade de se deixar surpreender, seus companheiros de trabalho já organizavam reuniões periódicas, para se eleger o representante do grupo de buscas. Estavam na 25ª reunião, mas ainda tinham muito pela frente. Temas como a marca e intensidade do pó do café servido e se rodariam o ônus de oferecer a casa em sentindo alfabético ou zonal ainda não tinham sido enfrentados. Todos estavam ansiosos, na angústia de preverem que em 30 ou 40 reuniões a mais, teriam de contatar os familiares, e um subgrupo já estava se formando para determinar se seria a mãe, ou o irmão o primeiro a ser avisado.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
São Paulo III
De frente para um posto de gasolina, numa travessa tímida da Av. Sumaré, entre um prédio entediado e uma churrascaria/pizzaria/bar-dançante/karaokê de sextas e sábados, tem uma casa que de quartas-feiras a noite se ilumina de sala amarela alaranjada. De dama-da-noite vestido primavera, cerca de muro (baixo) e palmas abertas, se põe como velha sem se acabar, orgulhosa das rugas, de jardim a esbofetear a cara, ainda que com toda madura gentileza, deste caipira morador de apartamento que só faz imaginar como este pedacinho de cidade distante veio se encaixotar nesta cidade de tantos pedacinhos...
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
3 séculos a mais
Tem desses dias que nos perdemos nas pernas. As pernas que te faz, sem ver, olhar para a torre de muito amiga, num devagar sem arrastamento, um prolongar. Pode-se culpar de tudo. A bolsa, o Kassab, o mar de prazos, folhas e batidas frenéticas de teclado, pode-se culpar aquela palavra ou esse silêncio, culpa sempre se arranja, a pesar os joelhos. Não me ative nela, fui segurado pelo aperto. Esse sabe-que-lá já velho e muito conhecido. Um inconfundível nó nalgum lugar entre a tireóide e a traquéia. Esse miolo de pão que não desce seja quanta água for. O tema era o surrado desagrado do sozinho. A saudade do cheiro que não circunda mais, assombra. A pele, aquela pele. A ausência do ser cúmplice. Do ouvir o desembestar de qualquer história, a risada, o respiro, os pequenos barulhos. Era para pegar o ônibus, mas de aperto bastava o meu. Foram-se as pernas para o calor, sem dar a menor para os sapatos sola fina, o terno tecido grosso, convenções de medida da distância.
No randômico das mil músicas, a angústia durou 3, talvez 4. Eu já no automático da cena esperava pelo choro que não veio. Perdido e sem script até forcei uma, mas nada de nem furtiva lágrima. Me peguei gostando da batida pernambucana do Lenine, do ar da chuva que nunca mais desconjuro depois da secura impregnada nas narinas por 30 dias de cerrado. Já pelas pernas da Avenida, olhando o infinito dos tantos carros, a pergunta não era mais do que não tinha, mas de que filme a segunda-feira da 2001 me tinha deixado. Me vi no gostoso de Zelig de Woody Allen, da pipoca gorda nada de light e muita manteiga, no abençoar da chuva que veio na hora certa, na hora que quis.
Descobri nessa noite que o Word publica, a blockbuster nem pipoca tem mais, o x-salada com ovo vale uma dezena de reais e trinta minutos de esteira. Claro que o perfume é bom e falta pelo ar. Não perdi o querer. Perdi é o atropelo desesperado, como se tivesse lavado das mãos o encardido com a última gota d'água que me foi agraciada. Acho que perdi o ultra e estacionei no só romântico. Só é bom também, é bom também.
sábado, 11 de outubro de 2008
1996, a metade inteira
Não sei se foi o sono, ou se foi mesmo destino, afinal não se pode fechar os olhos para a tremenda coincidência. Em menos de 12 horas, ele bateria a mesma perna, e de novo, nalguma coisa dela. Andando para o fundo do café, ele nem viu a pasta colocada ao lado da cadeira. Foi um desastre. Antes a batida tivesse apenas machucado a perna que já estava sensível. Mas quando se pode ter resultados catastróficos, para que a simplicidade? A pasta escorregou pelo salão, parando apenas no garçom que trazia o café preto, sem açúcar, e dois pães de queijo que ela sempre pede. Com os olhos fechados para impedi-lo de assistir o desastre, ele viu só resultado. Um garçom estirado no chão, atônito pelo surgimento de uma pasta expressa fazendo caminho no meio do salão, um café esparramado e dois pães de queijo rolando para baixo da mesa. Ele púrpura de vergonha pede desculpas para a moça, para o garçom, para os demais telespectadores e não sabe se devolve a pasta, levanta o atendente, procura pelos pães de queijo ou corre desesperado até a cidade vizinha e nunca mais volta naquele café. Enquanto olhava para a porta, calculando a velocidade média necessária para uma fuga perfeita, o garçom já tinha se levantado e ela, olhando para aquela figura desolada, pergunta se tinha doído. Nunca conseguiu entender o porquê da pergunta. Não era de conversar com ninguém, muito menos com alguém que chutasse sua pasta e derrubasse seu café. Mas alguma coisa naquele rosto triste, naquele ar de desamparo a despertou. Era como se pela primeira vez tivesse olhado no espelho e visto nada mais que tristeza. Ele demorou para entender o que acontecia. De todas as alternativas previstas esta nem sequer passou pela sua cabeça. Olhou para aquela mulher bonita, que se esforçava para contrariar essa natureza a todo custo e, sorrindo pela primeira vez em dois dias, disse não. Senta, convidou ela desacreditando nas próprias palavras. Assim você me paga o café que me fez perder. Sentou. Pela primeira vez estava no lado oposto de uma mesa com outra mulher que não a sua primeira namorada, sua noiva, sua ex-mulher. No momento estava perplexo demais para se ver planejando alguma coisa e acabou por ser ele mesmo. Conversaram por duas horas. De frivolidades climáticas a confidências metafísicas. Mas nem um nem outro conseguiu falar de suas experiências românticas. Como se diz que seu casamento acabou porque sua mulher resolveu se entreter de outro alguém? E pior, como se diz que se passou a vida inteira sem nunca amar ninguém? Era já quase nove horas da noite quando ela caiu em si. Assustada com aquela rebeldia contra o cronograma tradicional ela resolveu voltar para casa. Se despediram na porta, ela chegou a oferecer uma carona, mas ele queria voltar à pé. Ela não conseguia se lembrar da última vez que tinha chegado tão tarde em casa, muito menos porque se perdeu conversando com alguém. Já ele tinha esquecido como era conversar. Seu casamento nos últimos anos se resumiu a grunhidos. Sua ex-mulher malmente o olhava, quem dera falasse com ele. Os dois dormiram como nunca. E enquanto ela cumpria sua rotina pela última vez, ele se refestelava na piscina, agora sem tentar nada mais do que se enrrugar. Depois do trabalho, correu para o café, sem nem perceber que a força que a impulsionava naquela tarde não era a rotina, e ele já estava lá. Ele nem precisou convidá-la. Ela foi direto à sua mesa. Ainda não tinha explicação para tamanho atrevimento. Agia pelo impulso que desconhecia. Impulso esse que, também pela primeira vez, movia aquele romântico desfalecido. Algo nela o acalmou. Quem sabe a dor na perna ou o furacão que revirou sua cabeça tivessem anestesiado seu ímpeto projetista. Dessa vez o assunto foi inevitável. Ele foi o primeiro a desabafar o desastre amoroso. Destapou a falar, do primeiro encontro à noite do dia 31. Ela não demorou muito a contar a história de sua vida amorosa.
Nunca teve uma. Pulou de um relacionamento para o outro sem nem vive-los. O trabalho a consumiu por inteira, não deixara nem uma força para outra coisa, mentia-se ela. Quando ela terminou, perceberam que, de formas tão distantes, chegaram no mesmo fim. Nenhum nunca tinha realmente amado. Ele porque perdeu todo o tempo planejando o que deveria ter vivido, ela porque não viveu qualquer coisa fora de seu escritório. Não sei te dizer como. Nem eles sabem. Se foi o fim avassalador que imobilizou a mania dele de só sonhar, se foi o olhar triste que fez ela se reconhecer, se simplesmente foi. Sendo qual motivo fosse, naquela noite do dia 2 de janeiro de 1996 ele aceitou a carona e às 10:00 da manhã seguinte, nenhum deles tinha acordado.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
1996, a segunda metade
Mas como dizia, ele se arrastava pela orla, triste que só, pobre dele. A vida estava tão distante daquela cabeça que os olhos não viram o carro. Não se pode culpar só a distância dele, temos que admitir que a sonolência dela contribuiu para o encontrão. Não, ele não ficou a beira da morte, ninguém passou a noite acordada olhando para o leito de um hospital todo aparelhado e com várias telas de pontos verdes subindo e descendo. Isso aqui não é escrito pela Glória Peres e muito menos tem um orçamento global. O que aconteceu foi o esperado. Ela se assustou, ele ficou com a perna doendo. Após alguns pedidos de desculpas e uma certa preocupação com o rapaz, após perceberem que não passou de susto, ele voltou a se arrastar e ela finalmente saiu do prédio e foi para o trabalho. O hotel era perto. E ele ainda não tinha conseguido engolir aquilo. Não a localização, mas a existência. Como é que aquela erra e ele é que tem que sair de casa? Anos gastos para se achar o sofá perfeito e as almofadas exatas para agora deitar num quarto padronizado e insosso. A vida tinha mesmo desmoronado e ele tinha as férias inteiras para sorver cada segundo amargo. Depois de se enrugar na piscina o dia todo, na tentativa frustrada de se matar de tédio, ele resolveu tentar dormir. A cabeça batia nos mais variados ritmos étnicos. Todas as tribos africanas eram contempladas pelo ressoar altissonante da sua ressaca. A noite tinha sido uma caminhada sem fim, regada a algum parente de quinto grau de alguém que já esteve na Escócia, mas de passagem. Mas mesmo com um sono de anteontem, não conseguiu pregar o olho. A imagem se repetia com um vigor invejável. Uma, duas, dez, cem, e a imagem não se cansava nunca, impávida, a maldita. Desistiu quando a imaginação resolveu tomar espaço, apresentando outros ângulos à cena. Lembrando de um café gostoso no centro, resolveu, para variar, dar uma caminhada e deixar os atores em posições acrobáticas performáticas terem um pouco de privacidade. Ao chegar nem notou que ela estava lá, aliás, como sempre faz, todo e qualquer dia. Se o choque adúltero tinha abalado por completo a rotina do nosso romântico, a dela nunca se desviou um centímetro, até mesmo porque a monotonia era tamanha que a possibilidade de algo chocante acontecer era, desconsiderando a margem de erro, zero. Acordava sempre às 6:00, tomava seu café invariavelmente as 6:15, e de banho tomado saía do seu prédio às 7:03, com uma pontualidade de fazer se remoer qualquer londrino. Entrava às 7: 30, almoçava ao meio dia, saía às 18:30, e o grande luxo do seu dia era tomar um na esquina café antes de voltar para casa. Tanta rotina consegue cansa qualquer um.... é melhor deixar o resto pra próxima, e tomar um café em algum lugar por aí.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
1996
Antes de fuxicarmos a vida alheia, é bom descer algumas linhas sobre este ano tão longínquo e talvez desconhecido pelos teus olhos novos. 1996 foi data de distinta euforia pelos rumos econômicos tomados pelo país quando do comando do último dos Imperadores, aquele que não pode ser nomeado (não, querida moça, não confunda com a literatura infantil de seu tempo). Muitos já se encarniçavam pelos beicinhos burgueses e neo-liberais do catedrático, mas a maioria nadava de braçada na maravilha do mundo com 3 zeros a menos e com a pífia realidade cinematográfica (ou em português claro, de Hollywood) da paridade com o dólar. Dá até para sentir falta de Pedro Mallan ('Essa história de recessão no Brasil é lixo, é bullshit') e de frango vendido a R$ 0,99. Quer coisa melhor do que ouvir palavrão em língua estrangeira em país que a maioria nem português fala, comendo asa frita com frango assado e canja de entrada? Mas não falemos de coisas pequenas, vamos nos ater ao que importa. Mil novecentos e noventa e seis foi o ano em que tudo aconteceu. Ele e ela se acharam no mundo. Mas não foi assim tão fácil. Ele nem sempre teve ela do lado. Ela nem sempre teve um lado para se ficar. Era 1º de janeiro daquele ano bom. Bom porque todo novo ano é. Não tem um cristão, ou mesmo anti-cristo, que não acha que dessa vez vai. Que vai, vai. Só que nem sempre para longe do que já se ia.... Ele andava macambúzio pela praia, entupida de pólvora, rosas e paulistanos que até aquela hora faziam fila para pular as três ondinhas. Chorava o fim. Não do ano, mas da vida com lhe era. Nunca se arrependeu tanto de uma surpresa. Antes não tivesse a sorte de conseguir um vôo para casa na véspera do ano novo. Antes não tivesse casado. Ela não se considerava feliz, mas não tinha grandes razões de tristeza. A vida era a de sempre. Do trabalho para o apartamento à beira-mar. Nele para a cama. Dela para o trabalho. A rotina era tanta que não abria espaço nem para sentimentos. Enquanto ele viveu planejando ela planejou uma vez só e viveu do resultado. Ele tinha a imagem da cerimônia do casamento na cabeça já na primeira vez que beijou aquelaoutra. Da carreira à cor do pano de prato, ele tinha decidido tudo. Só a escapadela daquela não estava no script. Já ela teve alguns, mas nenhum que valesse a pena pensar em qualquer coisa, nem mesmo se chegava a gostar deles. O que nenhum dos dois imaginava era que o ano de 1996 ia ser bom. Esse ia.